Gabriel Nogueira Ferreira é psicólogo do CAPS II de Formiga-MG.
Quais são as consequências biopsicossociais decorrentes dessa manobra?
Não é preciso estar dentro de um serviço de saúde mental para perceber que vivemos uma banalização dos diagnósticos psiquiátricos. Está em voga, principalmente, via mídias sociais, a apropriação do CID-10 (Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde) tal como se apropria dos horóscopos na tentativa de dar alguma explicação sobre a nossa personalidade. Embora o acesso a informações nos forneça autonomia e responsabilizações, o uso indiscriminado e banal, pode gerar uma série de complicações e prejuízos individuais e coletivos.
Abordar os fatores que produzem na população a necessidade de um auto enquadramento através dos diagnósticos psiquiátricos é uma tarefa impossível no espaço desta matéria, pois a questão envolve determinantes sociais, políticos, econômicos e culturais complexos. No entanto, acho relevante a reflexão sobre o perigo que corremos quando nos apropriamos de um diagnóstico, seja ele, “depressivo”, “bipolar”, “ansioso”, “hiperativo”, etc. de forma inadequada, banalizada, mercantilizada.

A banalização da doença e dos diagnósticos, vale destacar, interessa muito à Indústria Farmacêutica, que lucra milhões e milhões diariamente com a medicalização da vida. O uso excessivo de medicações reflete a hegemonia do saber/poder médico acerca dos processos de saúde e doença das pessoas e comunidades. O que predomina aqui é o viés biologizante, que reduz a dor e o sofrimento humano a meros fatores químicos e cerebrais, desconsiderando elementos psíquicos e sociais.
Esse viés biologizante que nos induz a classificar e enquadrar nossas personalidades conforme os códigos do CID-10, gera a chamada patologização da vida, ou seja, emoções, atitudes e conflitos humanos são vistos como patologias, e por isso, situações a serem corrigidas pela intervenção médica. Exemplo: quantas vezes o luto pela perda de um ente querido é transformado em doença? Quantas vezes nossas limitações físicas e mentais são taxadas de desinteresse, apatia, inibição? A patologização da vida é um potencial produtor de sentimento de culpa e impotência, coagindo muitas pessoas a se submeterem a tratamentos químicos invasivos e desnecessários.
Quais são as consequências biopsicossociais decorrentes dessa manobra? A banalização dos diagnósticos faz com que muitos determinantes subjetivos e sociais passem despercebidos, causando maior risco e alienação. Como desconsiderar o desemprego, a fome e a violência que, de um grau a outro, nos atravessa diariamente? Como desconsiderar a precarização das políticas públicas que afeta a vida de vários brasileiros sem acesso à saúde, à educação, ao trabalho digno? Fechar os olhos para essas questões, achando que os nossos medos, tristezas e angústias são consequências de um desequilíbrio do sistema nervoso é sustentar a opressão, a individualização e a mercantilização do sofrimento.
Portanto, caros leitores, cuidado para não resumirem suas vidas a um nome, a um diagnóstico, a uma patologia. Somos mais que um diagnóstico! O diagnóstico, realizado por um profissional com ética e cuidado, é apenas um dentre vários outros instrumentos que servem para guiar o tratamento e não selar o destino de ninguém. Não deixemos que a doença apague todas as outras dimensões existenciais ou sociais da nossa vida! Não permitamos que a doença nos envolva numa segunda pele, numa nova identidade! Isso pode virar um ciclo vicioso que, ao invés de curar, paralisa.
Gabriel Nogueira Ferreira é psicólogo do CAPS II de Formiga-MG.


