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Assassino

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Colunistas - Anisio Rios

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Aprecio muito ficar sentado nesse banco de praça. Em meio ao caos do trânsito deste inferno metropolitano, esta ilha de centenárias árvores me acolhe todos os dias. É o primeiro lugar aonde vou depois que saio do meu escritório, no décimo sexto andar do prédio em frente. Espreguiço sem receio e a pesada musculatura dos meus braços provoca estalos aqui e acolá. Enquanto aprecio a paisagem, vejo uma criancinha correndo atrás de uma bola que rodopia em direção à rua. Levanto-me rapidamente e recolho o brinquedo, antes que aconteça algum acidente. A mãe atenta chega instantaneamente e agradece minha presteza. Afago rapidamente os cabelos daquela criança e falo em tom jocoso que ela tome muito cuidado com os carros. A mãe aprova em silêncio, sorri e se afasta com seu pequeno tesouro. Esta imagem de mãe e filho sempre me comoveu. Inconscientemente desejo que aquele garotinho não se envolva com as pessoas erradas no futuro.

           Volto ao meu banco costumeiro e, sob o poente, pondero um pouco sobre minha pessoa. Sou calmo, seguro, inteligente e bem-humorado. Tenho ótima aparência, bom português e discreta elegância. Consigo me destacar no esporte e até na música dou meus passeios. Sou um escritor que alcançou um pouco de sucesso. Meus livros vendem muito bem, principalmente porque eu mesmo os compro aos milhares. Estranho? Jogada de marketing? Talvez seja menos estranho se eu revelar o que realmente me impulsiona nessa vida. Que maneira melhor para se lavar dinheiro não declarado do que esta? Cerca de setenta por cento das minhas publicações são compradas por mim mesmo. Embora pareça estranho, levo uma vida dupla. Como vou dizer para chocar o hipotético leitor o menos possível? Ora, sou um assassino profissional; muito profissional. Um exterminador, igual aos dos filmes. Recebo uma missão e parte do pagamento. Estudo todos os detalhes e rotinas do alvo. Daí eu o elimino dentro ou fora de sua rotina, conforme as circunstâncias. Mas não é só isso que faço. Fiz parte da equipe de demolição do exército e das forças especiais. Eu arquiteto táticas de arrombamento, destruição e eliminação de alvos conjuntos, civis ou militares. Já militei em grupos paramilitares e guerrilhas na fronteira brasileira quando era mais jovem. Foram bons tempos. 

           Observo as pessoas em sua rotina e sorrio discretamente. Andam tão preocupados com seus afazeres que nem desconfiam dos perigos que as espreitam. Trinta mil dólares é o preço normal de um serviço simples. A minha eficiência compensa o investimento. Fácil. Uma distração e o martelo geológico acerta o bulbo do freguês. Sem sangue. O corpo desmonta como se o pupeteiro tivesse cortado os fios da marionete. Morte limpa. Espalho restos de cabelos, fluidos animais, substâncias químicas diversas e resíduos hospitalares colhidos previamente para criar o caos na polícia técnica. Só por diversão. A pancada que dou é tão violenta que chega a partir os ossos. Sumo na escuridão ouvindo Nirvana e Led Zeppelin. Meu rosto sempre ostenta disfarces sutis por causa das eventuais câmeras. No noticiário, a ladainha de que a polícia tem pistas e está perto do criminoso. Sem perigo. Vão é arranjar algum infeliz para boi de piranha. Moro a centenas de quilômetros do local do crime.

           Dias depois vejo meu novo alvo. Mesmos horários e rotinas. Sorrio. Posso esganá-lo sem que ele possa reagir. Nada pode ferir minhas mãos. Nada me passa despercebido. É apenas mais uma ovelha para o abate. Ele não é nenhum santo. Traficou, contrabandeou, assassinou e dedurou diversos colegas. Vou variar a técnica. Basta um gole na cerveja para sufocar até a morte, sem conseguir falar uma palavra. Minutos depois, feito.

           A sociedade criou monstros que agem como eu das maneiras mais inverossímeis. Encurralou tanta gente que muitos descobriram os horrores que habitam suas mentes. Não foi diferente comigo, mas acho que sempre quis fazer isso. Misto de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Identidades, passaportes, disfarces simples. Ninguém desconfia. Minha conduta é ilibada. Nenhuma multa de trânsito, infração, absolutamente nada. Ainda por cima, sou colunista em um jornal de grande circulação na metrópole onde resido, o que me faz ainda mais idôneo, em teoria. Ministro cursos e palestras em universidades.

           Novamente estou em ação e, orgulhoso disso, aperto a empunhadura da minha faca de combate e espero sempre pelo pior, afinal, um dia a coisa vai desandar. Como dizem por aí, perfeito só Deus. O tempo me endureceu por dentro e não sei mais o que é o medo. A morte é minha fiel companheira, sempre. O clamor por piedade dos meus alvos mais sórdidos soa como música. Às vezes essa ausência de sentimentos me incomoda um pouco. Sou um produto desvirtuado do mundo moderno. Tenho conhecimento para matar pessoas de todas as maneiras possíveis. Juntei ciência, prática e as táticas das forças especiais do exército em um treinamento contínuo. A prática cotidiana fez o resto, me tornando um dos melhores, quiçá o melhor do ramo. Infelizmente não há concursos e nem provas para saber quem é o melhor.

           Já matei centenas de pessoas; boas e ruins, não me importando com isso. Já fiz explosivos com os materiais mais vulgares, vendidos livremente nos supermercados e casas de materiais de construção. Coisa de filme? Que nada, é tudo verdade. Entre outras coisas, já usei muita prata retirada de chapas de radiografia e de moedas antigas, para produção de fulminatos. Nitrocelulose eu fazia só por diversão. Já a nitroglicerina, apesar de simples de produzir, necessita de um rígido controle de temperatura durante a nitração do glicerol, daí eu sempre ter evitado sua fabricação. Nobel que o diga. Prefiro produzir o trinitrotolueno, o qual é extremamente seguro e eficiente. Nitrato de amônio e diesel também funciona bem. Minha especialidade mesmo? Explosivo C-4 caseiro produzido através da nitração de um antigo antibiótico. É!!! Quem iria imaginar uma coisa dessas, não é? Com a corrente elétrica certa, um abraço. Mas eu só usei explosivos em eliminações de chefes de tráfico e ataques a comboios militares e paramilitares. Colômbia, Venezuela, não importa.                            

          Fico me perguntando quantos carros-fortes já ajudei a arrombar quando comecei nessa carreira! Sempre foi algo divertido, ainda que perigoso pelo fato de outros criminosos estarem envolvidos. Penso nos fornos de cal que já fizeram com que provas dos meus trabalhos desaparecessem em cinzas. Outras vezes os grandes rios fizeram o lúgubre serviço. Sorte dos peixes.

          Remôo estes pensamentos nesta tocaia e olho novamente minhas mãos. Quanta força! Quanto treino me custou. E esta faca? Não troco por nenhuma outra arma. Seu aço ainda reluz, apesar das marcas do uso. Afiá-la exige uma técnica especial. Não é para leigos. Ela abre qualquer caminho. É uma extensão da minha mão e com ela posso fazer praticamente qualquer coisa. Eu a confeccionei com as técnicas dos grandes mestres. Depois que minha vida se transformou, tive e tenho nela minha mais fiel companheira. Já dilacerei muitos alvos no meu caminho. Nem viram de onde surgi. Ossos estalaram sob o fio do metal. Minha assinatura ficou em vários locais.

         Como todo criminoso que se preze, culpo o sistema, o qual tirou tudo o que era importante para mim. Ah, não, não houve nenhuma tragédia com esposa, filhos e família. Não sou casado. A gota d’água foi numa questão de terras. Agradeço por ter acontecido, pois agora não reprimo mais o que sou; juiz, júri e executor. É verdade que comecei no crime um pouco tarde na vida, mas o sucesso freqüente das minhas empreitadas me inspirou a continuar. Comecei como um tipo de justiceiro. Esperei dois anos para começar meu serviço. Eliminei todos os envolvidos no caso das terras da minha família e depois fui para longe do Pará. Nada de fugir, pois todas as mortes foram muito bem arquitetadas.

         Com o tempo vieram os serviços de eliminação profissional. Sem tiros. Só a faca e a tocaia. Às vezes, sem faca. Apenas com as mãos nuas. Extratos vegetais, gases tóxicos, venenos e concentrados de peçonhas de taturanas também sempre fizeram parte do meu acervo logístico. O dinheiro adquirido nas minhas empreitadas comprou diversas esquisitices que meu ego sempre almejou, mas nada preenche o meu vazio. Só o afã do combate me acalma. Crianças não; jamais iria ferir crianças. Mato gente ruim e gente boa também, mas nunca crianças. Já cortei a garganta de um político desavisado que me mandou eliminar crianças, filhos de outro político. Lamentei a sujeira que o sangue desse desprezível fez na sala onde estávamos. Tive que fazer, senão ele contratava outro, sem escrúpulos. Assassino profissional de verdade também tem ética. Não me misturo à ralé de pistoleiros de aluguel; gentalha que desprezo. São uns pulhas que usam armas velhas em público e depois vão encher a cara. Sem profissionalismo. Fazem apenas pelo dinheiro. Já eliminei um monte deles, a mando de seus mandatários ou mesmo por me sentir incomodado com este tipo de “concorrência”. Espero que um dia entendam que o que me incomodava nisso era a possibilidade de confundirem meu trabalho com o desses iletrados. Sem remorso, remorso nunca.

           Certa vez um famoso traficante colombiano me contratou para abrir um carro-forte, em uma ação rápida. Quanta inocência dos seguranças que se achavam protegidos atrás destes aços, armados com pistolas e outras armas. Quinhentos gramas de C-4 sob o veículo em uma estrada secundária. Tudo por controle remoto. Depois de tirar o veículo da estrada, ele se abriu com a mesma facilidade com que se corta manteiga, pois 3800º foi a temperatura que meu dispositivo de arrombamento atingiu. Documentos e papéis diversos incendiaram. Um segurança se feriu gravemente. Foi executado na hora. Não por mim, claro. Tenho ética, mas não me importei. Na hora estava pensando na garota com a qual estou saindo e na jóia que pretendia dar a ela. Havia jóias no veículo, mas eu não ousaria dar uma jóia roubada. Tenho ética. Não roubo, pois recebo pelos meus serviços. Um dia sei que vão tentar me eliminar na prática denominada “Queima de arquivo”. Eu deveria parar antes, mas não consigo mais.

           Cheio de dinheiro, comprei a jóia para minha namorada. Queria me casar com ela e fiz o pedido juntamente com o presente. Ela chorou emocionada. Linda moça sofrida na infância e adolescência. Eu a conheci quando ela servia mesas em um restaurante que freqüentava. Depois de vários encontros, a levei para morar comigo. Fiquei comovido com sua história e desde então sempre procuro fazê-la sorrir. Trato-a como louça fina. A terrível ferocidade de minhas mãos desaparece na presença dela e, em seu lugar, apenas a brisa cálida e carícias tocam seu corpo. Terei que levar uma vida dupla e cheia de mentiras, mas, em qual relação isto não acontece de um jeito ou outro? Será um calcanhar de Aquiles com o qual terei que conviver, logo, não posso falhar nunca. Ela nunca deverá saber nada sobre mim, sob a pena de se tornar um possível alvo. Terei coragem? Ela jamais poderá saber, por exemplo, que o seu padrasto foi sumariamente eliminado por mim; sem contratante e nem nada. É que fiquei sabendo através da mãe dela que, por muitas vezes, ele a violentou e surrou na infância e adolescência. Engoli minha ira momentânea e arquitetei um plano. Custei a localizar o salafrário em uma cidadezinha no interior de Minas Gerais. Quando o fiz, o espanquei até a morte, enquanto explicava calmamente o porquê daquilo tudo. Fiz o que se deveria fazer com qualquer violentador. Justiça cega. Achei muito ruim ele não resistir muito. Não o fiz sofrer bastante e não cheguei a quebrar sua vigésima costela. Embora sua agonia e súplicas de perdão fossem doces como a mais exótica das guloseimas, queria que aquilo durasse mais, para ele se sentir no lugar dela.

          Uma menina apavorada ouviu tudo aquilo, amarrada a uma cama. Treze anos! Que monstro faz isso com uma menina de treze anos? Entendem a minha diferença para essa gentalha? Minha faca cortou as cordas que a feriam e ela saiu de seu cativeiro. Num misto de gratidão e pavor, ela tentou correr. Eu a agarrei pelos cabelos e, com minha faca em sua garganta, falei: Nem um pio, guria, pois senão te mato também.

            Apesar da violência que tive que simular contra ela, a guria falou bem de mim na TV. Aos prantos, é verdade, mas na segurança de seu lar novamente. Não conseguiu me descrever e acho que nem quis. Secretamente, deve me agradecer todas as noites. Sou um herói para ela, quem diria! Matei dois coelhos com uma só cajadada. Não sei se existe um Deus ou mesmo se gente como eu merece o perdão Dele. O caso é que nunca me arrependi de nada do que fiz e, pelo contrário, quero é fazer mais. Talvez eu seja um monstro mesmo. Depois que eu me for desta para melhor, alguém irá ler este texto e saberá quem fui realmente. Por outro lado, se a vida me der filhos, eu destruirei estes arquivos porque não quero que vivam com o estigma de um pai assassino, por mais que eu me orgulhe disso. Quero que me vejam como um escritor que fez carreira. Até o dia da minha morte, exilarei estas palavras nos porões mais hediondos da minha mente sombria. Até este dia, que todos pensem duas vezes antes de fazerem bobagem ou se envolverem no crime, pois posso ter sido contratado e estar novamente à espreita como estou agora.

Texto:Anísio Cláudio Rios Fonseca

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