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VÍCIO É VIRTUDE OU VIRTUDE É VÍCIO?

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Colunistas - Marco Aurélio Veado

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A prática desenfreada, sem critérios, sem controle e inconsequentemente de tudo que fazemos vira vício. Experimentou, gostou, acostumou, ficou, perenizou

e prejudicou. Poderia ser este o conjunto de verbos que define o vício, em síntese. Toda ação levada ao extremo, como todos sabem, prejudica corpo e mente e, como se não bastasse, afeta aos outros, como no caso das drogas, por exemplo. O problema maior não é somente o mal que o tóxico faz à pessoa que o consome descontroladamente. O pior é que geralmente o viciado não tem auto-controle nenhum e, além de não pensar em si mesmo, pouco liga para os outros. Quer se libertar dos dissabores da vida e acaba ficando preso de outra forma. Quando fica sóbrio, sofre mais ainda do que antes. Sei que estou caindo no lugar-comum ao falar de droga, mas penso que se o ser humano fosse mais consciente da sua realidade e tive um pouco mais de auto-domínio, a droga não iria fazer tão mal assim como faz em quem não esteja preparado. Nada de apologia aqui, apenas ratificando de que o vício é a prisão que os fracos se auto-enjaulam. E nada de presunção tampouco. Evidentemente que, se cada organismo se comporta de uma forma peculiar. O vício em droga ou em qualquer outra coisa pode fazer mal para um e não fazer mal para o outro. Portanto, é preferível não cair em tentação. Em outras palavras, é melhor não experimentarmos daquilo que não conhecemos. Abrir uma porta que não se sabe para onde você vai, é entrar na escuridão. Mexeu com o desconhecido, mexeu com vespeiro. 

O fator que pode ser determinante nos indivíduos que se deixam levar pelo vício é a  molécula que todos têm, responsável pelo apego excessivo e incontrolável por determinadas coisas ou práticas. Trata-se de um receptor neuronal específico que varia de configuração de acordo com o tipo de vício. No caso do ser humano viciado em tabaco, a molécula responsável é chamada acetilcolina, onde a nicotina se alojaria. Ela provoca a liberação de dopamina, que provoca a sensação de prazer, alívio e relaxamento. Há outros vícios, como o de comer desenfreadamente ou a compulsão de evitar alimentos só para emagrecer a todo custo. Enfim, toda mania começa inocentemente e a mente se encarregará de enganar o usuário, gerando o temido processo de dependência. Tudo isto pode começar a partir das causas já mencionadas (medo, necessidade de poder) e por causa de influência, facilidade de acesso ou gosto pela aventura. Resultado: doença ou morte.

Por outro lado, recentemente, assisti a um documentário muito interessante que se chama “A Molécula do Espírito”. Trata-se, em síntese, de uma explanação científica sobre o DMT ou Dimetiltriptamina e seus efeitos psicodélicos no indivíduo. O DMT é o princípio ativo da ayahuasca, utilizado nos rituais do Santo Daime. No citado filme, um time de renomados cientistas, dentre neurologistas e pesquisadores de diversas correntes, escolhem cobaias a fim de monitorar suas reações físicas, emocionais, motoras e mentais após a ingestão da ayahuasca. Escolheram todo tipo de personalidade: frágeis, pragmáticas, reacionárias e, enfim, o resultado foi mais ou menos o esperado. Por causa das características de cada um, o efeito foi variável, como não podia deixar de ser. Contudo, os mais capacitados conseguiram vivenciar momentos paradisíacos após tomarem o DMT. Resta saber o que aconteceria se eles viciassem na prática.

No mais, classificar vício e virtude vai depender, obviamente, de quem pratica a ação, se ele está preparado para enfrentar as conseqüências que o seu “Nirvana” irá provocar nele e em todos que o cercam. Será que os viciados em Coca-Cola e em chocolate dirão que seu vício é ruim? Antigamente, beber café era proibido porque a cafeína causava dependência. Mas, tomar café virou moda e deixou de ser vício para se tornar virtude. Deu para entender? É o mesmo caso para o sexo desmedido. Uns dizem que a pessoa é viciada (se não for tarada, claro, nesse caso, é doente), outros dizem que é garanhão. Reparem que cada adjetivo tem uma conotação diferente. É por essas e outras que sinto dificuldade em distinguir vício e virtude. Afinal, tem ladrão que vira político (ou seria vice-versa?) que diz que “rouba, mas faz” (Adhemar de Barros, político paulista dizia isto). Os que recebem o dinheiro do gatuno público (geralmente ele próprio e seus aliados, o eleitor que se dane) diriam que ele é essa prática é uma virtude. Para quem ganha é virtude e para quem perde (o contribuinte) é um vício daninho (redundância proposital), Para não cometer pecado, vou abster de discorrer mais sobre esse problema semântico que assola os lingüistas que não sabem mais se vício e virtude são sinônimos ou antônimos. Estaria o inferno feliz e o Céu triste ou vice-versa? Vai saber...

MARCO AURELIO GV

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