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Acerca da beleza que me cerca

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Colunistas - Anisio Rios

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Anísio Cláudio Rios Fonseca

             Mais um ato de violência impensada e meu ser se esvai em pó. Não

entende? Meus olhos sôfregos não possuem mais o frescor das lágrimas que se derramavam quando o bem ou o mal se estranhavam ao meu redor. Sou uma entidade mística que vaga por entre gerações que envelhecem a cada vez que as vejo. Meu tempo está parado e apenas culpas pululam minha mente deturpada pelo medo. Meus crimes não têm perdão na Terra ou no céu e se repetem cada vez que fecho os olhos. Cravo as unhas mal aparadas em meus cabelos e tento não enlouquecer de vez nesse mar de destruição em que minha vida se transformou. Só posso ir em frente e cada passo que dou é pisando em alguém, que acabo por ferir e humilhar irremediavelmente. Ainda não me entende, não é?        

             Embora me apavore com o que me espera se realmente existir o juízo final, não tento mais recuperar minha sanidade e espero ao fim de cada dia que minha vida se acabe tão ruidosamente como surgiu. Tudo o que fiz foi errado, mesmo com as melhores intenções. Nasci errado e para errar, machucando as pessoas ao meu redor e criando abismos onde só havia horizontes. A guerra me cinzelou e endureceu. Fiquei cheio de farpas, espinhos e pontas recortadas que podem tirar a vida de quem tentar se aproximar demais. Já te implorei para que não se aproximasse de mim porque iria acabar se ferindo, mas a dor parece não lhe incomodar. Destruí toda a minha vida com meu desprezo e atitudes insanas, mas você ainda parece não entender. Posso acabar com sua vida também em um instante qualquer porque a dor que me consome tem seus altos e baixos e, numa dessas, posso perder mesmo o controle. Ah, acho que não posso não...

            Você sorri para minha desgraça, acaricia meus cabelos mal cortados e diz que tudo isso está apenas na minha cabeça. Que coisa! Diz docemente que não sou terrível e nem mortal como penso ser, mas sou apenas alguém que não sabe lidar com as próprias emoções. Droga! Isso parece ser até pior do que eu estava sentindo. O que sabe de emoções? Por acaso lutou nos campos de batalha? Sabe alguma coisa disso? Já atirou com um fuzil Barret calibre .50 Browning?  Já viu corpos mutilados espalhados pelo chão? Já sentiu tanto pavor de cair em uma emboscada que chegou a ficar dias sem dormir? E você sorri?

            Desculpe eu falar assim! Você é uma grande mulher e por isso não posso entender o porquê de continuar perto de mim. É certo que todos os cantos que posso enxergar se colorem quando você chega, mas se tornam furnas tenebrosas quando não está perto. Sua beleza me cerca e aquece, mas ainda sinto um grande vazio que eu mesmo devo ter criado.

             Sou louco, alguém que ouve vozes, explosões, gritos de companheiros feridos, choro. Alguém que imagina estar vivendo situações que existem apenas em filmes ou livros. Por que então insiste em colorir todo o meu mundo? Por que me ama assim? Não sou uma enfermidade que pode te fazer mal? Não posso um dia apertar sua garganta com tanta força até te matar, sem o menor motivo?

             Você sorri novamente destes horrendos devaneios e coloca mais café em minha xícara. Sabe das minhas limitações. Reprova meu vício, mas traz alegremente o cinzeiro. A nicotina e o alcatrão mascaram momentaneamente o frescor de lavanda da sua varanda. Não sente medo, não sente pena e simplesmente não vislumbra o horror que imagino existir. Deixa-me indefeso simplesmente ao me olhar. Baixo minhas defesas. Tudo parece não ter mais relevância alguma. Não posso mais estar longe de seu convívio. Dos dois mundos em que vivo, escolho o que você colore. Tento esquecer o que fui, afinal, nunca vou ganhar essa contenda mesmo. Cenas das guerras que lutei vêm e vão e já parecem lembranças distantes. Aos poucos meu coração entra no compasso. Fico calmo. Você me beija demoradamente e extrai aos poucos o veneno que me mata. Baixa minha febre. Meus pesadelos vão se extinguindo. Com o tempo, volto a ser feliz. Você me curou.

                   

(Anísio Cláudio Rios Fonseca é professor do UNIFOR-MG, coordenador do laboratório de mineralogia, especialista em Solos e Meio-Ambiente e membro da Academia Formiguense de Letras)

e-mail: anisiogeo@yahoo.com.br

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